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Que mundo o Projeto Manuelzao quer audar a construir?
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O raio emitido durante uma tempestade, o contorno da costa brasileira, a folha de  samambaia, renda-portuguesa, terremotos na Califórnia, o batimento de um coração saudável, o movimento financeiro das ações na bolsa de valores são acontecimentos ou fenômenos que possuem características comuns. São sistemas complexos, caóticos, que apresentam propriedades de auto-similaridade e auto-organização e possuem dimensões geométricas fractais. Fenômenos dessa natureza podem ser construídos ou simulados a partir de regras muito simples e, em geral, possuem uma variável de controle, a mais relevante, que é responsável pelo seu comportamento. A projeção das demais variáveis nesta variável controle permite o acompanhamento da evolução do sistema complexo. ‘A volta do peixe ao rio’, que é o mote do Projeto Manuelzão, é a expressão-síntese que representa um sistema complexo, a bacia hidrográfica do Rio das Velhas, um sistema integrado e diversificado, cuja variável relevante é o peixe. Se o peixe volta ao rio, tudo mais acontece, acompanhando simultaneamente, ou quase, esse retorno. Da mesma forma que muitos fenômenos aconteceram propiciando o quase desaparecimento do peixe. Toda a região se organiza, nos mais diferentes aspectos: sociais, administrativos, político, econômicos, ecológicos, educacionais, nas suas tradições folclóricas, etc. É um sistema integrado, apesar de diversificado; um sistema complexo, funcionando na sua criticalidade; um sistema cujo comportamento global é definido a partir do peixe de volta ao rio. Projeto Manuelzão, um exemplo de sucesso a ser seguido, um exemplo de complexidade, tão comum na natureza.*

As águas nos levaram a compreender melhor a globalização. O ciclo hidrológico, as correntes marítimas, as migrações de aves e peixes pelos oceanos são exemplos de que a vida na Terra não obedece a fronteiras rígidas e permanentes, criadas pelos Estados e. A natureza não se subordina à lógica territorial da divisão político-administrativa internacional e dos países.

Ao focarmos a discussão e as atividades na bacia hidrográfica do rio das Velhas o fizemos com objetivos metodológicos e estratégicos bem claros. Passamos a dispor de uma linguagem compatível em qualquer parte do planeta: colocamos a água no centro da questão ambiental, a questão ambiental no centro da questão econômica, as bacias hidrográficas e os ecossistemas no centro da geografia política e a vida no centro de todas as nossas preocupações. Fomos percebendo a base mais profunda da vida no território geológico: a litodiversidade e a geomorfologia na base da fitodiversidade e esta na base da zoodiversidade.

O foco principal da proposta do Projeto Manuelzão está na transformação da mentalidade cultural, para nós a questão chave do processo de construção histórica da humanidade; transformação cultural a ser localmente impulsionada pelo objetivo operacional pontual comum: a volta do peixe à bacia hidrográfica do rio das Velhas, alavanca desse processo. A definição desta alavanca tão simples não foi aleatória; resultou da observação de como ocorrem os fenômenos socioambientais e de uma prática teórica árdua e vivenciada. A variável volta do peixe expressa uma relação complexa que conseguimos compreender. Aplicando-a na estratégia de revitalização de uma bacia podemos abrir caminho para uma discussão política e filosófica em escala planetária.

Percorrendo as grandes distâncias do interior mineiro e vivenciando as mazelas sociais, o debate político-acadêmico sempre brotou nas entranhas da disciplina Internato em Saúde Coletiva, também conhecida como Internato Rural, da escola de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Nosso grupo sempre perguntava: como dar conseqüência prática ao genérico discurso da determinação social do processo saúde-doença? Na verdade, as práticas hegemônicas da clínica e da saúde pública refletem a idéia da saúde como um produto da medicina.

Assim, o Projeto Manuelzão surgiu com um componente ético fundamental, a defesa da saúde da população. Mais vale prevenir e promover a saúde que remediar. Quando surgimos, nosso primeiro olhar foi para o saneamento básico, enquanto atividade de promoção de saúde. Em conseqüência, avançamos para as águas, para o território de bacia, para a busca de indicadores ambientais, para a crítica do Sistema Único de Saúde.

Na origem do Projeto Manuelzão havia influência ideológica marxista, oriunda das atividades nos movimentos sociais e na resistência à ditadura militar, de seus primeiros coordenadores, mas todos com formação familiar cristã. O pensamento dialético, a experiência em mobilização social, a utopia da justiça social enquanto combustível, a consciência dos limites das ideologias, o exercício da autocrítica, o gosto pelos estudos políticos e filosóficos foram algumas das contribuições herdadas. A rigidez interpretativa do modelo da luta de classes, a visão economicista ou messiânica, a idéia fixa em partido político e a tendência à burocratização foram as principais amarras que soubemos afastar.

O Projeto Manuelzão tem sido uma escola para todos nós, pois tem a dinâmica do novo paradigma. Hoje sabemos que as questões socioambientais da bacia hidrográfica do rio das Velhas evoluem condicionadas e determinadas pela globalização do comércio e do modelo internacional de produção e consumo. É imperativo internacionalizarmos o Projeto Manuelzão, nas suas ações acadêmicas, políticas, artísticas e de mobilização, levando o debate a todas as latitudes. A realidade socioambiental do planeta Terra é intrinsecamente associada, não sendo possível pensá-la desconexa por países.

Estamos preocupados e projetando desenvolver ativas relações internacionais com os três segmentos com os quais temos trabalhado: ONGs, empresários e governos. Uma das propostas é divulgar e discutir a proposta de uma bandeira do planeta. Ela foi lançada provocando debates no II FestiVelhas em Jequitibá, bacia do rio das Velhas. O mastro foi reservado para mostrar a diversidade cultural com as cores nacionais e de grupos que quiserem se representar com autonomia. Não pensamos em cores de Estados, nem em ser bandeira da ONU, visto que estamos pensando numa construção solidária dos povos e não em entidades de Estado. O símbolo que propomos para os povos é a fotografia do planeta Terra, com seu satélite e o astro maior de nosso sistema.




Apolo Heringer Lisboa
Coordenador-Geral do projeto Manuelzão e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais



  
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